Podem, sim. Enxaqueca e disfunção da articulação da mandíbula podem existir na mesma pessoa, e uma não exclui a outra. Num estudo brasileiro com 158 pessoas com disfunção temporomandibular, a enxaqueca foi a dor de cabeça primária mais frequente: 55,3%.1 O nome que você recebeu não impede de olhar a mandíbula.
Você tem enxaqueca há anos. O nome é verdadeiro, o remédio foi receitado e a dor continua voltando: às vezes é uma pressão na têmpora, como se apertasse por dentro; às vezes você já acorda com ela. E ela tira o que é pequeno: o dia rende metade, você pensa antes de morder uma coisa dura e ninguém em volta percebe. Se isso te descreve, existe uma pergunta que cabe em uma linha: a mandíbula também pode estar nessa história?
Isso não é falta de esforço, não é frescura e não é da sua cabeça, por mais que alguém já tenha te dito isso. Este texto mostra, com fonte, o que se sabe sobre enxaqueca e mandíbula, o que a classificação internacional das dores de cabeça diz e o que vale levar para uma avaliação. A visão geral da relação entre dor de cabeça e mandíbula está em dor de cabeça e ATM; aqui o foco é a enxaqueca. Sem promessa: o objetivo é você saber que pergunta fazer.
Enxaqueca e disfunção da ATM podem existir ao mesmo tempo?
Podem. Enxaqueca é um diagnóstico clínico, feito pela história da dor e pelos critérios da classificação internacional. Disfunção da ATM (DTM) é um problema da articulação e dos músculos da mastigação. São diagnósticos diferentes, e a mesma pessoa pode ter os dois ao mesmo tempo, sem que um anule o outro.
Um estudo da UNESP, em Araraquara, avaliou 158 pessoas com DTM atendidas numa clínica universitária de dor orofacial e 68 voluntários sem DTM. Entre quem tinha DTM, 55,3% tinham enxaqueca. Entre os voluntários sem DTM, 30,9%.1 A diferença existe (a chance de enxaqueca foi cerca de 2,8 vezes maior no grupo com DTM), e a enxaqueca também aparece em quem não tem DTM. Os autores viram ainda que a frequência da enxaqueca acompanhou a intensidade da dor da DTM.
O que isso mostra e o que não mostra: é um estudo de um centro só, com 158 pessoas. Ele mostra que as duas andam juntas com frequência. Não mostra que uma causa a outra.
A classificação internacional reconhece dor de cabeça vinda da mandíbula?
Reconhece. A Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3) tem um diagnóstico próprio, o item 11.7: cefaleia atribuída a disfunção temporomandibular. Ele exige sinal clínico de um problema doloroso na articulação ou nos músculos da mastigação e prova de que a dor de cabeça tem relação com ele.2
Para provar essa relação, o critério pede pelo menos dois destes três pontos:
- a dor de cabeça apareceu perto da época em que a disfunção começou, ou levou à sua descoberta;
- ela piora com o movimento da mandíbula, ao mastigar ou ao apertar os dentes;
- ela é provocada quando o examinador aperta o músculo da têmpora ou movimenta a mandíbula.
E há um último ponto: a dor não pode ser mais bem explicada por outro diagnóstico. Ou seja, se a enxaqueca explica tudo, continua sendo enxaqueca. A investigação da mandíbula serve para saber se há mais de uma coisa acontecendo.2
A própria classificação descreve essa dor como mais forte na região da têmpora, na frente do ouvido ou no músculo da bochecha (masseter), de um lado ou dos dois, e avisa que ela pode se sobrepor à cefaleia tensional.2
Pense na lombar. Muitas vezes o problema está na coluna, e quem dói é o músculo em volta, tentando compensar. Na cabeça pode ser parecido: a articulação da mandíbula trabalha mal, e o músculo da têmpora, que trabalha junto com ela, é quem dói.
Enxaqueca há anos e a mandíbula nunca entrou na investigação? Marque a sua avaliação, por vídeo ou presencial em Salvador.
Agendar a Avaliação Funcional & Biológica da ATMComo saber se vale olhar a mandíbula?
Vale levar a mandíbula para a avaliação quando a dor de cabeça aparece junto com sinais dela: dor que muda com o movimento da boca, aperto dos dentes, estalo ou trava. Nenhum item abaixo é diagnóstico. Eles organizam a conversa com quem vai examinar a sua mandíbula.
- a dor piora ao mastigar, ao abrir bem a boca ou depois de apertar os dentes;
- ela fica na têmpora, na frente do ouvido ou na bochecha, de um lado só ou dos dois;
- você acorda com a dor, ou com a mandíbula pesada e cansada;
- você aperta ou range os dentes (o que chamam de bruxismo), de dia ou à noite;
- a mandíbula estala, trava ou dói ao abrir e fechar a boca; o estalo, mesmo sem dor, entra na lista do que merece ser investigado;
- a sua mandíbula nunca foi examinada.
Se vários desses itens fazem sentido, a pergunta deixa de ser "será que é a mandíbula?" e passa a ser "quem examina a mandíbula?". Se a sua dor fica na lateral da cabeça, leia também dor de cabeça lateral e na têmpora.
A ressonância da cabeça deu normal. Isso exclui a mandíbula?
Não. A ressonância ou a tomografia pedida por causa da dor de cabeça olha a cabeça. O exame da articulação da mandíbula é outro pedido, feito com a boca fechada e com a boca aberta. Um exame da cabeça normal não foi feito para responder sobre a mandíbula: ele olhou outra coisa, e ninguém errou.
Exame normal não exclui o problema: é sinal de que a causa está na função, não na estrutura. Por isso a pergunta da mandíbula continua em aberto, e vale investigar. Sem promessa de que o exame da articulação vá achar algo: ele mostra o que houver para ser visto. Mais sobre isso em qual exame detecta problema na ATM e em dor de cabeça persistente com exame normal.
Quem cuida da minha enxaqueca continua cuidando?
Continua. A investigação da mandíbula soma, não substitui. O acompanhamento da enxaqueca e o remédio seguem com o médico que cuida de você, e quem decide sobre ele é esse médico. O que se busca é saber se a mandíbula também está na história, para o cuidado ser feito em conjunto, não em disputa.
Se você toma analgésico quase todo dia, vale ler também o que a ciência diz sobre tomar dipirona todo dia.
Como é a avaliação da mandíbula?
Na Avaliação Funcional & Biológica da ATM, eu ouço a sua história inteira, vejo os exames que você já fez, peço o que faltar e investigo de onde vem a dor, com você abrindo e fechando a boca, mastigando e mostrando onde dói. É feita por vídeo, de qualquer cidade do Brasil, ou presencial em Salvador.
Você sai sabendo o que tem e qual é o caminho. E se não for da articulação, eu te digo e te oriento para onde ir.
Para dar o primeiro passo, peça a sua avaliação pelo WhatsApp: a minha equipe responde e te leva ao horário.
Perguntas frequentes
Enxaqueca pode ser causada pela ATM?+
Quem tem enxaqueca deve procurar um dentista?+
Existe exame que confirma enxaqueca?+
A dor de cabeça na têmpora é enxaqueca ou é da mandíbula?+
Posso parar o remédio da enxaqueca se eu investigar a mandíbula?+
A avaliação pode ser por vídeo?+
Para continuar a leitura
- Franco AL, Gonçalves DAG, Castanharo SM, Speciali JG, Bigal ME, Camparis CM. Migraine is the most prevalent primary headache in individuals with temporomandibular disorders. J Orofac Pain. 2010;24(3):287-292. PMID 20664830. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20664830/
- Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211. Item 11.7, Headache attributed to temporomandibular disorder. https://ichd-3.org/11-headache-or-facial-pain-attributed-to-disorder-of-the-cranium-neck-eyes-ears-nose-sinuses-teeth-mouth-or-other-facial-or-cervical-structure/11-7-headache-attributed-to-temporomandibular-disorder-tmd/