Patologia da ATM · Dr. Marcelo Chiarini

Dor atrás do olho e ATM: por que acontece (e por que o oftalmologista vem primeiro)

Dr. Marcelo Chiarini Atualizado em 2026 CRO-BA 6713

Dr. Marcelo Chiarini · Pós-graduado em Patologia e Disfunção da ATM · Certificado AACP

CRO-BA 6713 | Salvador, BA · Baseado em evidências clínicas e literatura científica revisada por pares.

Você sente uma dor atrás do olho, ou uma pressão dentro do olho, que aparece junto com dor na têmpora, na mandíbula ou de cabeça. Foi ao oftalmologista, fez os exames, e ouviu que "o olho está bom". Mesmo assim a dor continua. Se essa é a sua história, existe uma explicação que quase ninguém investiga: a dor pode não estar nascendo no olho — pode estar sendo referida a partir da articulação e dos músculos da mandíbula. Mas antes de qualquer coisa, uma ordem precisa ficar clara, e este texto começa por ela.

Mulher pressionando a região ao redor do olho por dor atrás do olho, com possível origem na ATM
Dor atrás do olho com exame oftalmológico normal é um cenário em que vale investigar a musculatura da mastigação e a ATM.

Dor no olho? O primeiro caminho é o oftalmologista

Se você sente dor no olho ou atrás do olho, o primeiro profissional a procurar é o oftalmologista. O olho tem causas próprias de dor — algumas graves e urgentes — que precisam ser descartadas por quem examina o olho por dentro. Só depois de o oftalmologista afastar uma causa ocular é que faz sentido investigar se a origem está na ATM e nos músculos da mastigação. Essa ordem não é detalhe: é segurança.

Existem quadros oftalmológicos que são emergência e não podem esperar. Procure atendimento oftalmológico com urgência se a dor no olho vier acompanhada de qualquer um destes sinais:

Sinais de alerta para procurar o oftalmologista imediatamente:

Dor ocular forte e súbita com visão embaçada, olho muito vermelho, halos coloridos ao redor das luzes e enjoo ou vômito — o conjunto pode indicar glaucoma agudo (de ângulo fechado), que é emergência. Dor ao mover o olho com perda ou alteração da visão e mudança na percepção das cores pode indicar neurite óptica. Perda súbita da visão, total ou parcial, em um ou nos dois olhos, é sempre sinal de alerta.

Nenhum desses quadros tem relação com a mandíbula, e nenhum deles deve ser investigado por um dentista. Este artigo só é útil para o cenário oposto: quando o oftalmologista já examinou, descartou uma causa no olho, e a dor continua.

Por que a DTM pode causar dor atrás do olho e no olho

A articulação da mandíbula (ATM), os músculos da mastigação e a região dos olhos compartilham a mesma via nervosa: o nervo trigêmeo. Quando esses músculos estão em sobrecarga crônica, o cérebro pode "ler" o sinal de dor como se ele viesse da região do olho — é o que se chama de dor referida. Por isso uma disfunção temporomandibular (DTM) consegue produzir dor atrás do olho ou sensação de pressão ocular sem que exista qualquer doença no olho.

O trigêmeo é o nervo que leva ao cérebro a sensação de quase toda a face — dentes, mandíbula, têmpora e também a região ao redor dos olhos. Como esses caminhos se cruzam e convergem, um estímulo intenso vindo de um músculo tenso da mastigação pode ser "sentido" em um ponto distante dele. A dor é real; o que engana é o endereço de onde ela parece vir. Esse mecanismo de dor referida é bem descrito na literatura de dor orofacial, e a região retro-orbital (atrás do olho) é um dos destinos clássicos.

Não é um fenômeno raro. Um estudo que avaliou pacientes segundo os Critérios de Diagnóstico para DTM (DC/TMD) encontrou dor referida em cerca de 60% dos casos — ou seja, sentir a dor da DTM em um lugar diferente de onde ela nasce é mais regra do que exceção.

O músculo temporal e a dor por trás do olho

Entre todos os músculos da mastigação, há um que tem relação direta com a região do olho: o temporal, aquele leque que fica na têmpora, acima e à frente da orelha. Os mapas de dor referida descritos por Travell e Simons — a referência clássica sobre pontos-gatilho musculares — mostram que pontos de tensão no temporal projetam dor para a têmpora, para a sobrancelha e para trás do olho. É o mesmo músculo que aperta quando você range ou trava os dentes.

O masseter — o "músculo da bochecha", que endurece quando você aperta os dentes — soma tensão a esse quadro e refere dor para a face média. Mas, entre os músculos profundos, há um que explica particularmente bem a sensação de pressão dentro da face, e vale entender exatamente onde ele fica: o pterigóideo lateral.

O pterigóideo lateral: o músculo escondido atrás da maxila

O pterigóideo lateral é um músculo curto e profundo, alojado na fossa infratemporal — o espaço atrás do osso da bochecha, abaixo e um pouco atrás da órbita. Ele não pode ser tocado por fora, porque fica escondido atrás do maxilar superior. Por essa posição profunda, quando entra em algia (espasmo doloroso), a dor é referida para a maxila e para o fundo da face, sentida como pressão embaixo e atrás do olho — a queixa que muita gente confunde com "sinusite que nunca sara".

Para situar no rosto: imagine um músculo curto, na profundidade da face, ligando a mandíbula à base do crânio, num plano que passa atrás da arcada dentária superior e abaixo da órbita, entre o arco zigomático (o osso da bochecha) e o ramo da mandíbula. É ele quem inicia o movimento de abrir a boca e quem está por trás de boa parte dos estalos e travamentos da ATM. Nos mapas de dor referida de Travell e Simons — a referência clássica sobre pontos-gatilho —, o pterigóideo lateral projeta dor profunda para a região da articulação e para o seio maxilar. Como esse ponto fica logo abaixo e atrás do olho, o cérebro costuma interpretar a dor como se ela estivesse "dentro" ou "atrás" do olho — e nenhum colírio resolve, porque a origem é muscular.

Vale a honestidade científica: o músculo cujo padrão de dor referida atinge mais diretamente a região retro-orbital (atrás do olho) é o temporal; o pterigóideo lateral projeta a dor para a maxila e o seio maxilar — a pressão profunda embaixo e atrás do olho. Na prática, os dois costumam estar tensos juntos, e é essa combinação que produz aquela dor difusa ao redor do olho que exame nenhum de imagem explica.

Ilustração anatômica dos músculos da mastigação em vista lateral: temporal, masseter e pterigóideos, destacando o pterigóideo lateral profundo atrás da maxila e abaixo da órbita
Vista lateral dos músculos da mastigação. O pterigóideo lateral (profundo) fica atrás da maxila e abaixo da órbita — posição que explica a pressão referida atrás do olho.

Por que o exame oftalmológico dá normal e a dor continua

Porque o exame do olho procura doença no olho — pressão intraocular, retina, nervo óptico, córnea. Quando a dor é referida da ATM e dos músculos da mastigação, o olho está saudável e o exame confirma isso. O exame normal é uma boa notícia: descarta o que é grave. Mas ele não enxerga a musculatura da mastigação, porque não é essa a função dele.

Esse é o ponto onde muita gente fica presa. O exame normal é lido como "não é nada" — quando, na verdade, ele apenas aponta que o problema está fora do olho. É a mesma lógica de uma dor de cabeça que sempre dá exame normal: o lugar onde dói não é o lugar onde está a causa. E vale reforçar uma regra que se aplica também à mandíbula — exame de imagem normal não exclui um problema funcional. Função desregulada não aparece em foto parada.

Sinais de que a origem pode estar na ATM

Depois de o oftalmologista descartar uma causa no olho, alguns sinais aumentam a chance de a dor atrás do olho estar ligada à ATM. Vale investigar a mandíbula quando a dor ocular:

vem acompanhada de dor na têmpora, na mandíbula ou de dor de cabeça recorrente; piora ao mastigar, ao apertar os dentes ou ao final do dia; aparece junto de estalos, travamento ou cansaço na mandíbula; surge com zumbido ou pressão no ouvido sem causa no próprio ouvido; ou piora em fases de mais tensão — lembrando que o estresse é um gatilho que aumenta o apertamento, não a causa da dor. Quanto mais desses sinais aparecem juntos, mais o caminho aponta para a musculatura da mastigação.

Como se investiga a origem na mandíbula

Investigar não é tirar mais uma foto. É avaliar a função: como os músculos da mastigação estão trabalhando, onde a mandíbula está em relação a onde deveria estar, e o que dispara a sobrecarga que se transforma em dor referida. Uma avaliação funcional da ATM usa recursos como a eletromiografia para medir a atividade desses músculos, algo que nenhum exame de imagem mostra. A partir daí é possível entender se a dor atrás do olho tem, de fato, um endereço muscular — e o que fazer com isso.

Para aprofundar o quadro completo — o que é a disfunção, por que ela produz sintomas em pontos distantes e como costuma ser conduzido o tratamento —, vale ler o guia completo sobre disfunção da ATM (DTM).

Já foi ao oftalmologista, o exame deu normal e a dor atrás do olho continua? Talvez o endereço da dor seja a mandíbula.

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Perguntas frequentes

A ATM pode causar dor atrás do olho?
Pode. A ATM, os músculos da mastigação e a região dos olhos compartilham o nervo trigêmeo. Em sobrecarga crônica, a dor desses músculos pode ser referida para trás do olho, sem que exista doença no olho. Antes de investigar a ATM, porém, o oftalmologista deve descartar uma causa ocular.
Sinto dor no olho: devo procurar o oftalmologista ou o dentista?
Primeiro o oftalmologista, sempre. O olho tem causas próprias de dor, algumas urgentes, que precisam ser descartadas por quem examina o olho. Só depois de afastada uma causa ocular é que faz sentido investigar a ATM e os músculos da mastigação.
Fiz exame oftalmológico e deu tudo normal, mas a dor continua. O que pode ser?
O exame normal descarta doença no olho, o que é importante. Quando a dor persiste, uma das possibilidades é a dor referida a partir da ATM e dos músculos da mastigação — que o exame do olho não avalia, porque não é a função dele.
Qual músculo da mandíbula está ligado à dor perto do olho?
O temporal, na têmpora, é o que mais projeta dor para a sobrancelha e para trás do olho. O pterigóideo lateral — profundo, escondido atrás da maxila e abaixo da órbita — refere dor para a maxila e o seio maxilar, sentida como pressão embaixo e atrás do olho. São os mesmos músculos que apertam no bruxismo e no apertamento dentário.
Quando a dor no olho é uma emergência?
Dor ocular forte e súbita com visão embaçada, olho muito vermelho, halos ao redor das luzes e enjoo pode indicar glaucoma agudo. Dor ao mover o olho com alteração da visão pode indicar neurite óptica. Perda súbita de visão é sempre alerta. Nesses casos, procure o oftalmologista imediatamente.

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Referências científicas

  1. Schiffman E, Ohrbach R, Truelove E, et al. Diagnostic Criteria for Temporomandibular Disorders (DC/TMD). J Oral Facial Pain Headache. 2014;28(1):6–27.
  2. Travell JG, Simons DG. Myofascial Pain and Dysfunction: The Trigger Point Manual. Williams & Wilkins — padrões de dor referida do músculo temporal e do pterigóideo lateral.
  3. Fernández-de-las-Peñas C, et al. Referred pain from muscle trigger points in the masticatory musculature in women with temporomandibular disorders. J Headache Pain.
  4. Pflipsen M, Massaquoi M, Wolf S. Evaluation of the Painful Eye. Am Fam Physician. 2016;93(12):991–998 — sinais de alerta oftalmológicos (glaucoma agudo, neurite óptica).
Conteúdo educativo, não substitui consulta. Dor no olho ou atrás do olho deve ser avaliada primeiro por um oftalmologista, para descartar causas oculares. Este texto trata da possibilidade de dor referida a partir da ATM após essa avaliação. Dr. Marcelo Chiarini · Especialista em Ortodontia · Pós-graduado em Patologia e Disfunção da ATM · CRO-BA 6713 · Salvador, BA.

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Aviso importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não substitui avaliação clínica, diagnóstico ou tratamento por profissional habilitado. Os resultados podem variar de acordo com a individualidade biológica de cada paciente.

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