Autor: Dr. Marcelo Chiarini · CRO-BA 6713
Fontes: ICHD-3 (International Headache Society) · PNAUM (Ministério da Saúde) · Anvisa · dados SUS/Datasus
O despertador toca. Antes mesmo do café, a mão vai para a bolsa ou para a gaveta de cabeceira. A dor de cabeça já estava lá quando você abriu os olhos.
Você toma a dipirona. Em quarenta minutos, alivia. Você segue o dia.
À tarde, a dor volta. Você toma de novo.
Isso não é azar. Não é fraqueza. E provavelmente não é enxaqueca sem tratamento. Pode ser exatamente o contrário: o remédio que você usa para funcionar pode estar sendo parte do motivo pelo qual a dor não para.
O que é cefaleia por uso excessivo de medicamento
Existe um nome clínico para esse padrão. A Classificação Internacional das Cefaleias — ICHD-3, da Sociedade Internacional de Cefaleia — define a condição como cefaleia por uso excessivo de medicamento, conhecida internacionalmente como MOH (Medication Overuse Headache) ou CEM em português.
O critério é direto: dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, em paciente com histórico de cefaleia prévia, causada pelo uso regular de analgésicos simples — como dipirona, paracetamol ou AINEs — por mais de três meses consecutivos.
A prevalência varia de 0,7% a 2% da população geral. Nos ambulatórios de cefaleia, o número sobe drasticamente: entre 50% e 70% dos pacientes acompanhados preenchem critérios de MOH. No Brasil, o subdiagnóstico é expressivo — estima-se que metade dos profissionais de saúde não conhece a condição com profundidade suficiente para identificá-la no consultório.
Como o ciclo da dor por remédio funciona
O mecanismo não é intuitivo — e é exatamente por isso que tantas pessoas ficam presas nele sem perceber.
O loop funciona assim: toma o remédio → a dor alivia → o sistema nervoso registra o alívio → a dor retorna mais intensa → você toma de novo.
Com o tempo, o sistema nervoso se adapta à presença constante do analgésico. Passa a depender dele para regular a percepção de dor. Quando o remédio sai do sistema, o limiar de dor cai — e qualquer estímulo que antes seria tolerável passa a doer.
O que acontece no sistema nervoso explica por que sair desse ciclo é tão difícil: O uso frequente de analgésicos promove aumento da excitabilidade dos neurônios da dor, redução da analgesia endógena — a capacidade do próprio corpo de modular a dor —, sensibilização central progressiva e alterações em regiões como tálamo, córtex pré-frontal e ínsula.
Os dados brasileiros colocam essa situação em perspectiva: 1 em cada 5 brasileiros usou analgésico nas duas semanas anteriores, segundo a Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos (PNAUM). A dipirona responde por 37,8% de todos os analgésicos consumidos no país. Em 2022, a Anvisa registrou 215 milhões de doses comercializadas. Os atendimentos por enxaqueca no SUS saltaram de 40 mil em 2014 para 258 mil em 2024.
Quem está em risco
"Não sei mais se o remédio ajuda ou se é ele que está mantendo a dor."
"Se não tiver o comprimido na bolsa, fico em pânico."
"Antes tomava uma vez por mês. Agora se passo um dia sem tomar, a dor volta pior."
Se alguma dessas frases soou familiar — continue lendo.
O padrão mais comum não começa com uso diário. Começa com uso ocasional que vai se tornando frequente sem que a pessoa perceba a transição.
Você tomava dipirona uma vez por semana. Depois passou a ser três vezes. Depois, todo dia. O corpo foi pedindo mais — e você foi atendendo porque parecia a única forma de funcionar.
Os perfis mais comuns incluem mulheres entre 30 e 50 anos com histórico de enxaqueca ou cefaleia tensional, pessoas que alternam diferentes analgésicos sem perceber que o efeito cumulativo é o mesmo, e quem descreve o remédio como "preventivo" — toma antes que a dor apareça com força.
Um dado que surpreende: em um estudo com estudantes de medicina brasileiros, 23,5% tinham cefaleia crônica. Desses, 60,47% preenchem critérios de MOH. Futuros profissionais de saúde, dentro do ciclo, sem reconhecê-lo.
O que acontece quando você para o remédio
A primeira semana sem o analgésico costuma ser a mais difícil — e é o principal motivo pelo qual a maioria das pessoas recai.
A retirada provoca piora transitória da dor, acompanhada frequentemente de náusea, irritabilidade, ansiedade, insônia e maior intensidade dos episódios. Esses sintomas duram em geral de uma a quatro semanas.
O problema é que a piora é interpretada como prova de que "o remédio era necessário." Na prática, é o oposto: é o sistema nervoso reagindo à ausência de uma substância da qual passou a depender.
⚠️ A retirada é mais segura quando acompanhada e planejada com orientação de um profissional de saúde. Interromper o uso abruptamente sem suporte pode intensificar os sintomas e aumentar o risco de recaída.
A causa que ninguém investigou — a conexão com a ATM
Aqui está o ponto que muda o diagnóstico para muitos pacientes.
O ciclo de analgésico se fecha quando a causa original da dor é investigada. Mas quando essa causa nunca foi encontrada — o ciclo continua, independentemente da retirada do remédio.
A disfunção da ATM é uma das causas mais comuns de cefaleia crônica que permanece sem investigação. Pacientes com disfunção temporomandibular apresentam cefaleia com frequência significativamente maior do que a população geral — 27,4% contra 15,2% em estudos comparativos.
A razão anatômica é direta: a articulação temporomandibular fica a poucos milímetros do nervo trigêmeo. Quando a ATM disfunciona, pode irradiar dor para a cabeça, têmporas e região cervical. Essa dor é frequentemente classificada como enxaqueca e tratada com analgésico — sem que a fonte periférica seja identificada ou tratada.
O resultado é previsível: o analgésico alivia temporariamente, a fonte de dor continua ativa, a dor retorna, o ciclo não se fecha.
"Já fiz mil exames e todo mundo só aumenta a dose de remédio. Ninguém perguntou sobre minha mandíbula, meu sono ou meu estresse."
Exame de imagem normal não exclui disfunção funcional da ATM. O diagnóstico é clínico-funcional — baseado em história, exame físico, padrão de sintomas e investigação do ambiente interno do organismo.
Como investigar a causa real da dor
A investigação que fecha o ciclo vai além do sintoma apresentado.
O componente funcional inclui a articulação temporomandibular, a musculatura mastigatória, a postura cervical e o bioterreno — o ambiente interno do organismo, que abrange inflamação crônica, função intestinal, qualidade do sono e estresse oxidativo. Todos esses fatores podem alimentar a dor de cabeça de forma silenciosa, sem aparecer em exames convencionais.
Os sinais que indicam que vale investigar com profundidade:
- Dor em 15 ou mais dias por mês
- Uso de analgésico diário há três meses ou mais
- Remédio que "não faz mais o mesmo efeito"
- Dor presente ao acordar
- Tensão na mandíbula, no pescoço ou zumbido no ouvido junto com a dor de cabeça
- Histórico de múltiplos profissionais consultados sem diagnóstico claro
Se você se reconhece em dois ou mais desses padrões, a causa da sua dor provavelmente ainda não foi investigada com profundidade.
Perguntas frequentes
Tomar dipirona todo dia faz mal?
O uso ocasional é considerado seguro para a maioria das pessoas. O problema surge no uso diário e contínuo sem investigação da causa: existe risco de desenvolver cefaleia por uso excessivo de medicamento — condição em que o próprio analgésico passa a alimentar a dor em vez de resolvê-la.
Como saber se estou com cefaleia por remédio?
O critério principal é o padrão de uso: analgésico em mais de 15 dias por mês por pelo menos três meses consecutivos. Se a dor piorou gradualmente e o remédio "não faz mais o mesmo efeito", vale investigar com um profissional de saúde. A piora ao tentar parar o uso também é um sinal relevante.
Posso parar a dipirona de uma vez?
A retirada abrupta pode causar piora temporária da dor nos primeiros dias — o que frequentemente leva à recaída. Por essa razão, a retirada é mais segura quando acompanhada e planejada com orientação de um profissional de saúde que conheça o padrão de MOH.
Qual especialista trata cefaleia crônica?
Depende da origem. Quando a dor não responde ao tratamento convencional ou há componente articular e muscular associado — tensão na mandíbula, estalo, dor no pescoço —, uma avaliação clínico-funcional com foco em Patologia da ATM pode revelar causas que outros exames não mostraram.
A ATM pode causar dor de cabeça crônica?
Sim. A articulação temporomandibular fica a poucos milímetros do nervo trigêmeo. Quando disfunciona, pode irradiar dor para a cabeça e têmporas — frequentemente confundida com enxaqueca e tratada com analgésicos sem investigação da causa real. Em muitos casos, investigar e reequilibrar a ATM pode contribuir para interromper o ciclo de analgésico.
O que é investigação clínico-funcional?
É uma avaliação que vai além do exame de imagem. Investiga função articular, movimento, musculatura, bioterreno e histórico completo do paciente. Um laudo de ressonância normal não exclui disfunção funcional — o diagnóstico é clínico, não radiológico.
Se você toma analgésico quase todo dia e a causa da sua dor nunca foi investigada com profundidade — esse é o próximo passo.
→ Agendar minha Avaliação Funcional e Biológica da ATMConteúdo elaborado por Dr. Marcelo Chiarini · CRO-BA 6713 · Especialista em Patologia da ATM · Salvador, BA
Publicado em abril de 2026 · Atualizado em abril de 2026
Fontes: ICHD-3 (International Headache Society) · PNAUM (Ministério da Saúde) · Anvisa · dados SUS/Datasus
Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação presencial com profissional de saúde habilitado.